quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Gangue da Harmonia

Durante o mês de agosto as redes sociais mobilizaram o Rio Grande do Sul numa velocidade e efervescência que chegou a lembrar um episódio ocorrido há meio século, no tempo do rádio, que foi a campanha da Legalidade. Um artista gaúcho estava sendo processado pela Casa do Povo -vulgo Assembléia Legislativa- por ter publicado no Youtube uma canção onde chamava os deputados que se auto concederam um aumento que dobrava os salários, em meio as festas de fim de ano, por Gangue da Matriz. O deputado que ocupava o trono de presidente do legislativo gaúcho, pilhado por seus pares, chamou para si a defesa da corporação colocando em próprio nome a ação movida contra o cantor e compositor Tonho Crocco. Foi o que bastou para cair o mundo, via redes sociais, a partir de Porto Alegre uma vez mais, num movimento que tomou o planeta como rastilho de pólvora. A ponto de um grupo hacker de fora do RS e com radicais espalhados pelo globo defenestrar o site da assembléia. A intensidade do movimento foi suficiente para que o ex-presidente da Casa do Povo retirasse a ação movida contra o artista.

Isto passado, tomei um chope com Tonho Crocco, momento de muitas risadas pois o cara além de criativo é culto e de bem com a vida, quando entrei de sola e perguntei se ele não escreveria a canção Gangue da Harmonia, já que naquele dia os vereadores da Capital Gaúcha replicaram seus pares da assembléia e se auto concederam um aumento de 74%, retroativo ao começo do ano. A resposta veio seca:"vamos deixar a criatividade dos demais artistas locais se manifestar". Fiz menção imediata no twitter, ao que um seguidor do artista esclareceu da forma sucinta e direta como só a prática de escrever mensagens nos 140 caracteres do miniblog permitem:"se continuar fazendo músicas sobre as barbaridades cometidas pelos parlamentares isso vai virar ópera rock". Touché. O artista não pode se deixar pautar por um único tema. Seu trabalho estava feito e o dever cumprido com Gangue da Matriz.

Agora vem a notícia de que Tonho tinha razão. Nem precisou de música para evidenciar o descaso com a opinião pública dos parlamentares deste sul de mundo com a população que os sustenta. O Ministério Pública pilhou o Tribunal de Contas do Estado que, em decisão cautelar, suspendeu o aumento dos vencimentos dos titulares da Câmara Municipal de Porto Alegre. E mais do que rápido a presidente da casa se adiantou em chamar a mídia e deixar bem claro que não seguiria os passos escorregadios trilhados por seu par na assembléia:"se o TCE julgar que o aumento é inconstitucional o assunto está encerrado".
Ou seja: se no evento Gangue da Matriz o artista deu voz ao povo que fez o Rio Grande fervilhar no mês de agosto, deixando para o arquivo a tentativa de coação oficial de uma revolta encarnada pela população, a capital deste estado não poderia entrar setembro aceitando uma desfaçatez do mesmo quilate tornar-se real. Desta vez, as entidades públicas, sustentadas pelos impostos da população local é que tomaram à frente e trouxeram luz a mais este episódio de trevas.

Tonho Crocco não precisará lançar um "box" de discos contendo uma ópera rock sobre gangues parlamentares. Algum bom senso surgiu desse furdunço, mesmo que este escriba não acredite que o TCE venha a julgar o aumento como inconstitucional e tudo tornará como dantes no quartel de Abrantes.

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