quinta-feira, 30 de outubro de 2014

No tempo da Reúna

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Voltava eu da caminhada ao por do sol no Guaíba, naquele horário em que as rádios brasileiras são obrigadas a entrar em cadeia, para reproduzir a nefasta Voz do Brasil, quando peguei aleatóriamente uma das fitas cassete que ganhei do amigo Pablo Fabián e coloquei no toca-fita do meu carro. Qual não foi minha surpresa quando escuto uma das primeiras músicas que dancei em minha vida, bem pertinho, coladinho com bela uma menina, em minha primeira reunião dançante. Penso naquele momento até hoje, especialmente quando encontro a parceira daquela contra-dança, que aliás continua linda e com um sorriso e olhar irresistíveis. Mas deixemos isso pra lá que a gente cresceu e ela é casada e, ainda que eu sinta a mesma ternura e atração por ela, não é certo se meter na vida dos outros, ainda mais se for pra atrapalhar.


Mas voltando à trilha sonora que rodava no toca-fitas do meu carro, ouvir aquela canção foi um mergulho imediato, num passado longe… longe. Daquele momento em que eu e meu metabolismo queríamos muito ficar próximo das gurias, mais especificamente: do corpo das gurias. Sentir aquele calor, o perfume, o toque de pele, de cabelo, ver de perto o olhar fugidio e, até mesmo tentar alguma coisa mais ousada. Era a infância chegando ao fim e a adolescência entrando sem pedir licença.

Acho que a primeira novela de televisão que chamou minha atenção foi um pouco antes de chegar nesta época. Beto Rockefeller, aquela que falava de coisas e hábitos da geração a qual eu pretendia pertencer. Qual não foi minha surpresa ao ingressar no mundo noturno e quase adulto das “reúnas” e reconhecer tantas músicas que tocavam na trilha da novela. Era abraçar a menina, dançar coladinho, fechar os olhos e me imaginar gente grande. Sem falar em tantas outras melodias que fui conhecendo enquanto rodava os pés pelo chão de tantas garagens, das casas dos pais de amigos. 

Música tem essa capacidade de levar nosso pensamento a lugares mágicos, que estariam perdidos num passado distante. Às vezes basta ouvir alguns poucos acordes daquela canção que nem lembrávamos mais, para surgir uma torrente de imagens e lembranças prazeirosas.

Assim é a vida. É bela… cheia de momentos mágicos, que construímos para nos dar alegria no futuro. E nem sabíamos disso no momento em que estávamos realizando as proezas. Seja por causa de um rostinho colado, de um beijo roubado, de uma luz negra fazendo do salão quase uma alcova, tudo isso forjou nossos sonhos e povoam nosso imaginário até hoje. Memórias que nos mostram que a felicidade existe e provam a nós mesmos que, mesmo num mundo agitado onde se convive com as conquistas e derrotas o tempo todo, NÃO é tão difícil assim ser feliz. Basta a música certa e ter construído essa lembrança.

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