domingo, 30 de agosto de 2015

Agosto Seu Desgraçado


Um domingo clássico de fim de inverno na Capital Gaúcha. Daqueles de sentar ao sol e comer bergamota até rachar os beiços. Gaúchos no Harmonia, ou na Expointer, gente chimarreando pelos parques, tricolores no Humaitá e Colorados nos botecos desde às 11h conferindo a rodada para os 2 times que enchem de paixão os corações da gauderiada. Flores florindo, borboletas polinizando ao vento, quero-queros se querendo, aninhando e cantando longe do ninho. Enfim; um momento abençoado, de pausa e lazer com 27º e muito sol.

    Num domingo assim, agosto se despede deixando pra trás as enchentes e os riscos de ser um mês de cachorro louco. Em seu último fim de semana, só pra não deixar assim baratinho, traz uma notícia complicada e leva consigo um sorriso importante, uma alma generosa, alguém do meu bem querer e de tantos gaúchos. Daqui pra frente, não mais o sorriso de olhinhos puxados de Mary Mezzari, chegando sempre com uma piada nova e um bom motivo pra se dar risada. Não mais sua beligerância em favor de todos os que precisavam de uma voz em defesa. E que voz..! Essa o Rio Grande aprendeu a conhecer e a adorar como poucas. Não mais seu texto cheio de possibilidades e correção. Não mais suas conexões improváveis, fosse com a maior banda de rock do planeta, fosse com o maior galã de Hollywood, fosse com o Eterno Capitão, fosse com quem fosse.

    Quando entrei na faculdade de jornalismo, lá estava ela usando o diretório acadêmico como tribuna. Quando consegui meu primeiro emprego em rádio, lá estava ela comandando uma greve, já que o patrão considerava desnecessário honrar os salários da equipe. Em outras emissoras e redações onde trabalhamos juntos, aquela entidade do jornalismo do Rio Grande sempre flanou com seu bom humor e defesa intransigente das condições de trabalho. Mas nada que resistisse a uma Coca-Cola.

    Jamais vi outra pessoa ficar tão feliz com um refri, quanto Mary. Lembro de um texto dela em que dizia ter saído da mamadeira direto para o canudo da Coca-Cola. Ela até bebia socialmente, mas o que a fazia realmente feliz era aquele estouro do abrir da lata e a borbulhante sensação do copo enchendo. Pra acompanhar uma boa comida. Chegamos a ter um programa de gastronomia juntos -eu ela e o Bola 7- onde fazíamos basicamente isso: comíamos, bebíamos e falávamos sobre isso. Era muito alegre, muito divertido e sobretudo, muito saboroso. Como muito saboroso foi o convívio com ela.

    Aprendi no decorrer da vida, que é inútil se abater pela tristeza com as perdas de pessoas queridas. O mais importante é o que ficou de lembranças agradáveis, das coisas boas vividas em conjunto das emoções compartilhadas. Mary Mezzari era pura emoção. Um coração que bateu assim, de forma tão intensa e extremada, acabou parando cedo demais. Deixando os gaúchos um tanto órfãos daquela voz que fez história na Ipanema FM e os amigos apartados daquele sorriso doce. Resta uma bergamota ao sol, com um gosto ligeiramente amargo que puxa para o chimas, nesta saideira de agosto, onde eu conseguira vir até agora sem rimar com desgosto.

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