quarta-feira, 12 de abril de 2017

Essa a Globo Perdeu


   Ao longo de 3 fins de semana, um atrás do outro, a mais importante empresa de comunicação do Brasil cavou um buraco, azulejou, calafetou e, quando aquela piscina da profundidade de um poço estava finalmente pronta, parece que o arquiteto finalmente olhou pra cima e só aí notou que esqueceu de colocar uma escada pra sair dali. Uma obra completa de talento e quase perfeição que iniciou com a condenação unilateral de um artista contratado para ser jurado/treinador do programa The Voice Kids por uma denúncia não julgada, retirando o cantor sertanejo Victor do programa depois deste estar gravado e editando o episódio como se ele lá não estivesse, ou não tivesse participado.

   Na semana seguinte, outro julgamento sumário que começou na noite de sexta-feira e culminou com a lamentável publicação de “notas oficiais” por parte da rede de televisão e um de seus principais artistas contratados, o ícone do elenco de protagonistas masculinos das últimas décadas, José Mayer. A tragédia só podia ficar pior e ficou, com uma daquelas notas sendo imputada ao galã, que foi jogado aos leões em praça pública, para ser devorado, esquartejado e mastigado, por gladiadoras que vestiam a camiseta “Mexeu com uma, mexeu com todas”.

   O que a antiga toda-poderosa da comunicação de massas no Brasil não podia imaginar é que entre as criadoras da “hashtag” pudesse haver gente que saiba somar 1 + 1 e capaz de entender que o resultado seja = 2. O grande consumidor de conteúdo televisivo já compreendeu que hj se “fala de volta” com a televisão e quando esta se fizer de surda, as mídias sociais mostrarão o tamanho do equívoco. Criou-se então a “hashtag” #GloboApoiaViolência que, em pouco mais de 24horas conquistou o país e o globo(com trocadilho sim). O resultado foi um TT - Trending Topics do Twitter mais visualizado, comentado e retuitado do mundo com dezenas de milhares de pessoas engajadas em obrigar a Vênus Platinada a liquidar o último personagem do sexo masculino na edição 2017 do Reality Show BBB.

   Alguém com capacidade de concatenar ideias, passou adiante uma cena retirada do programa em que o médico Marcos Harter colocava sua namorada contra a parede, ou uma porta, segurava com força seu braço, gritava com ela e colocava o dedo na sua cara. Acrescentou ao twit o link para o Ministério Público, exigindo a interdição na gravação do BBB e a devida apuração dos fatos. Pois bem, mais de 50 mil twiteiros seguiram a sugestão e o MP se viu obrigado a entrar em ação, determinando que a delegada especial da mulher de Jacarepaguá, região onde se situa o PROJAC, parasse o programa. A lei entrou em ação por demanda popular e o “agressor” foi enquadrado, não restando à Globo, senão, a alternativa de expulsar o misógino falastrão. 


   Parece que a Globo não entendeu que essa geração que cresceu assistindo o Big Brother tb passou este tempo vivendo a divertida e agitada vida virtual das redes sociais. Essa gente que não se contenta em ligar para um número pago e simplesmente votar para livrar seu candidato, ou ferrar com outro, sabe o poder que têm na mão e fez valer a força do seu grito e sua exigência. A Globo não tinha escada para sair do poço que tão cuidadosamente azulejou e teve de ceder para conseguir tentar sair lá do fundo e tentar convencer a opinião pública de que td está na plena normalidade. Ao tentar agradar a todos, esqueceu que a audiência construída ao longo de décadas de uma programação socialmente corrosiva, cobraria seu preço. O preço cobrado foi alto e, mesmo que dê audiência, os patrocinadores pedirão aos analistas de mídias sociais relatórios qualitativos sobre os riscos do apoio de suas marcas à programação global.

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