domingo, 23 de abril de 2017

O Cara Mais Azarado do Mundo

   Eu passava os fins de semana na Serra Gaúcha. Tinha casa em Canela e fui fazendo amizades, além daquele tanto de gente que sobe daqui pra passar o finde lá em cima. Certa feita descobrimos um boteco novo, onde fomos beber. O cara que atendia nos ouviu falar que a flor de dama da noite lá de casa tinha desabrochado e começou a falar da vida dele. Contou que adorava sair da casinha e que certa vez tomou um chá de dama da noite.

   Na noite referida saiu pra louquear pela barragem do Salto, no caminho pra São Xico. Lá encontrou uma lancha, na qual saltou dentro e conseguiu dar ignição. Zuniu pelo lago da barragem até que lá pelo meio do espelho d’água o motor da lancha explodiu. Ele conseguiu saltar pra fora e sobreviver, nadando até a margem mais próxima, onde chegou exaurido e com muito frio. Era noite e foi um busca de luz pra ver se alguém lhe dava abrigo, ou um alimento quente para comer. Viu a luz de algo que poderia ser um rancho e para lá se dirigiu.

   Quando finalmente chegou à casa, bateu, gritou, mas ninguém o atendeu. Tentou abrir a porta, mas esta estava trancada. Deu a volta pela casa e as janelas também estavam trancadas. Teve uma ideia genial, dessas que só doidão tem e subiu no telhado, de onde escorregou, caiu e tchibum dentro de um poço. Mais molhado e gelado que antes, estrebuchou, gritou, clamou por socorro, mas nada de socorro aparecer. Quando finalmente conseguiu se acalmar se deu conta que tinha uma chance de escalar pelas pedras da parede do poço. Uma tarefa hercúlea, mas que poderia significar sua derradeira chance de seguir vivo.

   Pedra após pedra o doidaço desafortunado escalou as paredes do poço, até que conseguiu chegar ao seu fim, colocando a cabeça pra fora daquele que parecia ser o definitivo covil e… dar de cara com o cano de uma espingarda. Com o susto, caiu pra trás, outra vez ao fundo do poço. Ouvia lá de cima os gritos: “não sei te encho de chumbo ou espero morrer afogado, bandido de uma figa”. Ele clamava por socorro. Jurou que não era bandido, que estava apenas procurando por abrigo, que era náufrago e só precisava descansar num local seco e tal. 


   Um bom tempo se passou até que o irado cidadão com a arma na mão se acalmou e jogo o balde com a corda ao maluco encharcado, permitindo que ele saísse do poço. Quando este tornou a sair daquele buraco molhado, viu que a polícia já tinha chegado ao local e tomou voz de prisão antes que pudesse falar qualquer coisa. Molhado, gelado e humilhado, foi para o xilindró curar sua doideira, de onde só saiu no outro dia, depois de contar sua história ao delegado e fazer um acordo para pagar pelos estragos causados às propriedades alheias, como o barco que explodiu e o telhado do rancho que estragou.

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