quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Chega de Estado Absoluto

    Um poder central e absoluto, regido por quem se considera acima do bem, do mal ou da lei. Um Estado que cobra cada vez mais e maiores tributos a todos, especialmente aos emergentes e criando a estes todos o tipo de dificuldade para ampliar sua participação nos negócios, pois estes só podem estar sob a tutela do Estado, nas mãos de quem governa o poder central e seus apaniguados. O poder central acusa a burguesia de conspirar contra o bem do povo, argumentando que só o Estado pode proteger os pobres. Os rebeldes demonstram que é o poder absoluto que está impedindo o crescimento e a distribuição da riqueza, defendendo os grandes monopólios. Em tal caldo de cultura podemos acrescentar ainda seitas religiosas que defendem um lado, ou outro, com pastores e padres que usam os textos bíblicos para incitar a revolta e conquistar hegemonia. O estopim? Um líder rebelde no parlamento. 

    Captou a figura do caos? Exatamente; foi deste caldo de cultura que nasceu o capitalismo. A soma destes conflitos levou a Inglaterra a entrar em guerra civil, 4 séculos atrás, transformando-a em Reino Unido e na maior potência da civilização ocidental e do mundo, até as guerras mundiais do século 20. A falta de sequência na dinastia Tudor, anglicana desde que Henrique VIII separou-se da igreja católica para poder separar-se de 7 esposas, teve sua sequência em Elisabeth I, A Virgem, que por este detalhe não deixou herdeiros. Assim sendo, assumiu a coroa da Grã Bretanha o rei James I, da casa de Stuart, da Escócia. Um déspota que não aceitava ser contrariado e dizia ser ungido por Deus, que conseguiu liquidar com o crescimento político e econômico obtido durante o século anterior, dissolvendo o parlamento sempre que isso lhe parecia favorável e tentando impor uma monarquia absolutista baseada no direito divino. Seu sucessor, Carlos I não era melhor que isso e manteve o conceito de que reinava e governava por indicação divina e, portanto, não aceitava contestações. A ponto de dissolver o parlamento em 1628. Só 12 anos depois o parlamento foi restituído, mas a corrupção hegemônica, em especial entre os peruquentos da Casa dos Lords, fez com que os Cabeças Redondas, puritanos que dominavam a Casa dos Comuns sob a liderança de Oliver Cromwell se rebelassem definitivamente. Com o apoio da burguesia que não aceitava mais os monopólios controlando os negócios internacionais, nem a destruição das cercas das lavouras comunitárias onde se produzia o alimento, visando expandir a criação de ovelhas para aumentar a produção de lã e com a força dos calvinistas, que defendiam os camponeses contra o invasor anglicano. Ah e com um exército próprio que se bateu contra El Rei e os senhores feudais. Uma guerra civil, onde as tropas parlamentaristas, sob o comando de Cromwell, se bateram contra o absolutismo, subjugando o inimigo e retornando ao parlamento na tentativa de impor uma Carta Magna onde o parlamento passasse a ter o poder sobre o governo, reduzindo o poder real para a chefia do Estado. O rei comprou votos com o tesouro público, como de hábito e impediu a aprovação da mesma. Cromwell foi ter com seus soldados e contou a eles que não ganhariam o que lhes foi acertado e prometido, pois os derrotados estavam de volta ao poder. Foi o que bastou para suas tropas invadirem a Casa dos Lords, prenderem os proxenetas peruquentos da nação, dissolverem aquele antro e justiçarem seus membros, além de prenderem sua majestade, que acabou fugindo pra Escócia que, bem ao seu estilo, o vendeu de volta. Foi julgado, condenado e decapitado.

    Cromwell se auto-proclamou Lord Protetor da Grã Bretanha e partiu pra cima da Irlanda, pra dar uma sova nos católicos e anexando seus domínios num banho de sangue que levou a morte um quarto da população da ilha vizinha. O período entre a morte do rei e a morte do Lord Protetor foi o único em que a Inglaterra viveu sob uma República. Quando este se foi, os calvinistas tentaram nomear o filho, como herdeiro Protetor, mas não colou e a nação britânica concluiu que se era pra ter outra dinastia totalitária era mais fácil ficar com a monarquia que estavam acostumados. Chamaram os Stuart de volta, impuseram a estes a Carta Magna, separando o que é Estado daquilo que é governo e todos viveram felizes para sempre, assistindo a Revolução Industrial acontecer a passos largos sob a égide da modernidade.

    Viram como poder absoluto, não funciona nem na monarquia, nem na república? Sem falar que, no momento da divisão de tanto poder, pode muito bem surgir uma experiência capitalista, coisa da qual nosso país bem precisa experimentar. Chega desse mercantilismo com um poder central controlando tudo e favorecendo negócios apenas a seus apaniguados, restando a todos os demais o dever de pagarem a conta.

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