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quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Nos Tempos da Cafifa

Meus grandes momentos de ócio e lazer foram passados no Rio da Janeiro, pra onde rumávamos no início das férias escolares e onde ficávamos até que as aulas voltassem. Cheguei a passar 4 meses por lá, num mesmo ano. Tínhamos apartamentos em ambos os lados da baía de Guanabara: mamãe na praia de Icaraí, em Niterói, onde passava as manhãs tomando banho olhando para o Pão de Açúcar e papai tinha seu ap em Copacabana, onde entre uma descida de onda e outro jacaré, olhávamos para a Pedra do Leme, de um lado, ou para o Forte de Copacabana, pelo outro.

Meio-dia tinha de estar de banho tomado à mesa. Em Niterói tinha a família, que cada vez aumentava; sempre me apresentavam um primo novo que acabara de chegar de Itaperuna ou alhures. Então, se não estivesse à mesa na hora chamada, dificilmente restaria comida. Até que descobri que algo sempre sobrava: arroz. Descobri isso da maneira mais improvável: a molecada na praia aproveitava para empinar cafifa. Era uma das formas que eles chamavam soltar pipa. Papagaio também era aceito, mas o mais usado, por lá, era mesmo a cafifa. Pandorga nem pensar.


Os pilas nos bolsos eram escassos e eu reservava o pouco que tinha para as idas ao Campo de São Bento, em nossa rua, a poucas quadras de distância, onde eu adorava andar de auto-choque -sabe aqueles carrinhos elétricos de bate-bate? Pois é, eu não era bom naquilo... era mau. Se eu invocasse com alguém era perseguição até o último grão de areia que zerava a ampulheta, fazendo com que o zelador do brinquedo desligasse a energia e os carros parassem onde estavam.


Assim sendo, as amizades de praia e os primos incontáveis, ensinaram a montar as próprias cafifas. Primeiro tínhamos de encontrar e cortar taquaras, em tiras finas o suficiente para que as hastes ficassem bem flexíveis, as quais amarrávamos em cruz e uníamos as pontas com a mesma linha usada pra amarração do centro. Depois precisava cortar e colar papel de seda com as cores que estivessem à disposição na papelaria, ou nas Americanas, onde tudo era mais barato e ainda encontrávamos carretéis de linha, com milhares de metros de fio. Aqueles carretéis eram guardados depois de não terem mais linha, pois nos dias de chuva não dava pra ir à praia. Dois carretéis, unidos em sequência pela mesma linha, formavam um carrinho pra brincar dentro de casa. Quatro faziam um caminhão. O sentimento do brinquedo foi eternizado nas pinturas de Iberê Camargo, que na infância em Restinga Seca, também surrupiava os carretéis da casa para construir seus brinquedos. Carretéis é uma das mais importantes fases em sua carreira de pintor.


Aí é que finalmente entra o arroz. Armação de taquara pronta e devidamente amarrada por linha. Papel de seda colorido comprado e recortado no tamanho suficiente para cobrir a cruz. Deita-se a armação sobre o papel e recorta-se no formato do triângulo obtido, com uma folga em torno de 1cm. Naquela folga do papel, junto à linha da extremidade da armação, cola-se as bordas do papel, envolvendo a linha. Cola como? Com a sobra do arroz encontrado na geladeira, devidamente degelado. Pega o arroz com uma colher, despeja uma pequena quantidade de grãos junto à linha e sobre o papel, faz a dobra e, com a mesma colher esmaga o arroz entre a dobra. Foi naquele momento que fiz duas descobertas importantes: arroz é puro amido e por isso vira grude e descobri onde encontrar uma sobra generosa de alimento, caso perdesse o sorteio no almoço.


Era bom nos tempos da cafifa

domingo, 4 de agosto de 2024

Feliz Aniversário Mamãe

O 4 de agosto tem uma importância vital para mim: é o dia em que nasceu minha mãe. Há pouco mais de um século. A pessoa mais doce que jamais conheci, mas pragmática e severa, como boa leonina. Sempre alegre, sorridente e festeira, jamais colocou os pés além da porta de casa sem passar o batom e vestir algo alinhado.

Filha de sobreviventes da influenza espanhola e da febre amarela, que dizimou a população do Rio de Janeiro. O pai Valfrido, oficial militar, pertencia ao batalhão desbravador que sob comando do Marechal Rondon, levou os fios da comunicação aos rincões mais longínquos desse nosso país. Faleceu antes do casamento dela com meu pai, portanto não tive o privilégio de o conhecer. A mãe, nascida em Niterói, à época capital do estado do Rio, há pouco menos que um século optou por empreender, trazendo ao Brasil um método de aprendizado de datilografia, fundando assim a primeira escola do ramo, no estado que abrigava ainda o Distrito Federal, pois do outro lado da baía situava-se a Guanabara. Graças a isso, a Escola de Datilografia Royal, por ela fundada, conquistou o direito de levar às laudas brancas toda a documentação dos órgãos públicos da região. Foi um próspero negócio enquanto máquinas de escrever foram importantes, mas antes da chegada dos computadores, minha vó já tinha passado o controle da escola ao filho mais novo, já que o mais velho falecera em acidente automobilístico, minha mãe se mudara pra Porto Alegre, depois de casar com meu pai e a outra filha foi viver em Petrópolis, na Serra dos Órgãos, onde casou e constituiu família.
Mamãe estudou a vida inteira para buscar seu sonho de tornar-se profissional independente, nas décadas de 20 e 30, época de um mundo 99,9% masculino. Assim formou-se em Direito e ingressou no Instituto Rio Branco, buscando seguir a carreira diplomática. Até que o ditador de plantão -aquele chamado de "pai dos pobres"- editou decreto reservando o exercício dos cargos que exercem a diplomacia exclusivamente a homens. Como ela não estudou uma vida toda pra servir cafezinho em repartição, aproveitou ter conhecido um gaúcho que foi ao Rio procurando encontrar uma morena bem apanhada, bem informada e atualizada - naquele mundo entre duas guerras- casou e para o sul rumaram com o intento de constituir família. Os conhecimentos da dra. Maria Alayde em Direito e Diplomacia auxiliaram muito meu pai a tornar-se ainda mais próspero nos negócios do trigo, sua especialidade desde que saiu da Coronel Pilar onde nasceu, para conquistar o mundo.
Quando nasci, a prosperidade da família permitia que ela ficasse em casa cuidando dos dois filhos. Sou o caçula. E, desde sempre, o gordinho, que ela mimava a quitutes e guloseimas que ela estudou, durante seu tempo livre, para aprender. Ninguém cozinhava como mamãe. Os aromas e sabores guardo em minha memória até hoje, com carinho e gratidão do pouco que consegui aprender. Vocês não imaginam como eram meus aniversários, como foram nossas festas de fim de ano, ou os chás em que ela recebia a fina flor da sociedade porto-alegrense, para estabelecer e ampliar sua network. Sempre banquetes, onde este gordinho se lambuzava de felicidade.
Convenceu meu pai a matricular os filhos no melhor colégio que seu dinheiro pudesse pagar, o que ele fez sem jamais reclamar. Apenas deixava claro aos filhos que não pagaria duas vezes pelo mesmo serviço. Assim sendo, se alguém rodasse, repetiria o ano em escola pública. Recado dado e compreendido: jamais repeti ano na escola.
Assim fui criado, com essa inspiração de sempre buscar a qualificação através do estudo, especialmente o de línguas, a começar pela "última flor do lácio", que para mamãe era o cartão de visitas de um brasileiro. Obrigado mamãe por tanta doçura e dedicação