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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Prefiro O Abacaxi Ao Jumento

       Vc já viu um abacaxi? Não na fruteira, mas no cinema. Pois é, eu vi. Fazia anos que isso não me acontecia, mas me deixei levar pela vontade de cochilar depois de uma refeição tardia, com um nome famoso do cinema francês como Godard assinando o filme. Bah..! Isso facilitou minha sesta um monte. Obrigado meu ilustre cineasta francês, você me patrocinou um cochilo maravilhoso. Como a sala estava vazia, se ronquei ou se sorri, o importante é que não fiz sair ninguém dali -a única outra vítima de Adeus À Linguagem além de mim, estava na mesma fila que eu e já tinha levantado e abandonado o cinema ainda antes de eu cair no sono.

       Tenho essa paixão mal resolvida por filmes “off Hollywood”. Uma tendência a entrar em qualquer sala de cinema onde seja projetado um filme feito em um lugar diferente da fábrica de “blockbusters” do Tio Sam. Nada contra o capitalismo opressor yanqui, apenas contra as tosqueiras cometidas amiúde pelo produtores que bancam os filmes em Hollywood. Quantas vezes você já começou a assistir uma dessas películas motivado, tudo vinha bem, evoluía bem e, do nada, aquilo se transformar numa gosma de empurrar goela abaixo a pacientes em coma? Pois minha paciência para ser chamado de burro nas salas de cinema já foi pro espaço há muito tempo e, desde então busco assistir todo o filme feito fora da “meca” e, se for fora dos EUA, melhor ainda. Daí que seguido troco as tosqueiras pelos abacaxis.


Lembre-se sempre que, nestes momentos intensos e de estresse que estamos vivendo, duas horinhas no escuro, com a mente e o celular desligados, pode ser uma garantia de sanidade. Um abacaxi desses, como o do Godard, auxilia o vivente a desligar o disjuntor e sair de circuito, num momento quase uterino, pra depois renascer pronto pra voltar à guerra. Tenho um amigo que faz isso nos jogos do meu time e ele jura que chega a sonhar, mas ainda prefiro o abacaxi cinematográfico. Custa bem menos e nem se corre o risco de acordar assustado com os gritos e xingamentos da torcida contra um jumento investido no cargo de treinador, que coloca um centro-avante quando faltam apenas 10min de jogo, muda a partida, mas não dá mais tempo de mudar o resultado.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A Vida É Doce

        Entendo que tenha quem diga que é amarga, não contesto; talvez seja mesmo para quem assim diz. A minha, ao contrário é doce. Sempre foi, pelo simples fato de que desde minhas primeiras lembranças tive uma pessoa doce fazendo de tudo pra que viver fosse como saborear um pêssego no verão. Que sorte eu tive em ver a vida sempre assim, desde o início, não?
Com ela aprendi não só a me alimentar, mas também a fazer meu próprio alimento. Bah e como cozinhava bem e como gostava de me ver saboreando seus pratos e acepipes inacreditáveis. Sempre me levando em viagens incríveis onde descobríamos surpresas gastronômicas dos deuses, mesmo que isso fosse sob a lona de uma barraca, acampados ao pé de uma montanha ou próximo ao mar.
Com ela aprendi que amigos a gente encontra, afinal o mundo não é só aqui e que cada encontro de amigos pode virar logo numa festa. E como é bom fazer festa com gente amiga. Ela que sempre me lembrou que eu precisava aprender outras línguas, além da nativa, pois o mundo não é só aqui, embora repetisse sempre: “teu português é teu cartão de visitas; jamais faça uso incorreto dele”.
Pessoas doces são assim: oferecem e cobram com a mesma generosidade, firmeza e repetição, mostrando que a vida pode ser um alegre passeio pelo jardim divino em que nos foi oferecido viver. Ao mesmo tempo que nos alertam e preparam para resistir às intempéries, já que a rapadura é doce, mas não é mole não.  Assim nos ensinam a vencer a tristeza, pois esta não passa de um momento de repouso da alegria de viver.
Hoje é dia de lembrar disto, pois 4 de agosto sempre será pra mim um dia de festa, de casa cheia e de mesa farta. É o dia em que sempre celebrarei o aniversário de minha mãe, dra. Maria Alayde, a quem eu devo não apenas a vida, mas a descoberta de seu lado doce.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Réchitégui De Roupas Íntimas

 Hoje é um dos dias que mais me agrada nas redes sociais, o #LingerieDay quando meninas, a maioria de tenra idade, se exibe ao mundo daquele jeito que os namorados demoram muuuuito tempo pra conseguirem ver, quando conseguem. Um dia que só perde para o #DiaDoHomem quando meninas de todo o país prometem pagar boquetes pelo Brasil afora. A grande diferença entre as fotos que se vê nas páginas da "réchitégui" e aquelas conhecidas das revistas masculinas ou portais pouco louváveis de internet, é que a imensa maioria é de amadoras.
Aliás o número de amadoras no mercado da sacanagem, depois das redes virtuais, aumentou tanto que as GPs(forma politicamente correta atual para putas) estão se unindo a taxistas para protestar contra a concorrência que consideram desleal, depois que os motoristas decidiram se bater contra o Über.
Trata-se de uma das formas de expressão destes anos da 2ª década, do 1º século, do 3º milênio. Meninas que se exibem; ainda por cima com o aviso “APENAS EXIBICIONISTA”. Se vc acha isso difícil de entender, cautela;  vc pode estar ultrapassado. As meninas dos anos 2K têm os mesmos direitos que os meninos tinham no passado. Bebem tanto quanto eles, têm vida sexual ativa como eles e se exibem muuuito mais que eles, o que não faz delas putinhas; isso é reservado às GPs. É pecado? Provavelmente, mas numa sociedade que colocou a religião num plano inferior, quem se importa? É imoral? Num país onde se rouba Bilhões do dinheiro que resolveria os problemas de infra-estrutura, saúde, educação e segurança, fica difícil julgar o que é moral ou não, especialmente para cidadãos em formação como os jovens. É legal? Bem, eu acho legal, mas se pegarmos a forma da lei, num país onde fanáticos relativizam o trabalho de juízes que exigem o cumprimento da lei e colocam corruptos na cadeia, o que é legal ou deixa de ser é tão permeável quanto  membrana de celofane(pra quem ainda lembra das aulas de biologia).

É bonito? Ooh gente… bonito sou eu depois do 3º uísque(que vc bebe). É lindo ver meninas de todas as idades -sim tem maduras que pegam carona- cores e formatos democratizando suas intimidades vestindo roupas bem menos explícitas que as usadas no carnaval ou mesmo na praia. Portanto, fica mais fácil tentar compreender o apelo que vêm das redes sociais, do que perder o tempo esbravejando pela “moral e bons costumes”. Isso vai acontecer debaixo do seu nariz, queira você ou não. Não quer dizer que você deva estimular sua filinha com menos de 18 a sair se exibindo pela internet. Apenas tenha certeza que ela não é mais virgem, que faz coisas entre 4 paredes que provavelmente você nem sonhou em fazer com a mãe dela e que isso não faz dela uma devassa; apenas uma pessoa eroticamente mais resolvida que você.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Literatura E Os Pecados Da Carne

Enquanto advogados bem intencionados vão ao inferno, por mentirem, jornalistas bem intencionados foram ao Chalé da Praça 15 no cair da noite desta terça-feira pra cumprimentar e pegar um autógrafo do decano Flavio Dutra, lançando suas Crônicas Da Mesa Ao Lado. Poucos textos tem o fino humor do Flavio e poucos jornalistas agregam o respeito e amizade de tantas gentes das mais diferentes origens e procedências. Só de político 3 estrelas, o que tinha de bacana na fila do salão, dava um programa inteiro de CQC. Uma fila de respeito, de peso e de conteúdo, além de tamanho e duração. Escritor conhecido sempre tem bicha graúda em lançamento. Um alento praquele amigo meu que passa bem cedo nos lançamentos, pega o autógrafo, sai correndo para um motel, onde se refestela por horas a fio com alguma mariposa vivaz, chegando em casa perto da meia-noite, com cara emburrada e reclamando do tamanho e demora da fila de autógrafos.
Já eu, por viver só, não preciso de subterfúgios para  me entregar aos prazeres da carne e, após os cumprimentos e galhofas da celebração literária de ontem, tive de me atirar na mais pura e sórdida libação de fim de inverno: o mocotó do StarkBierZeit(a época de tomar cervejas fortes, em alemão). Uma promoção do Apolinário Bar, com o apoio gastrocultural do BurgoMestre Sady Homrich, para executar, degustar e se empanturrar com a receita e co-pilotagem de Fábio Franck e mesa de pães da chef Jaque. A cerveja Emigrator, da Abadessa fazia a harmonização que justificava o evento que, acreditem, ainda apresentou sobremesa depois de já estarmos todos mais estufados que urso ao hibernar.
A essas alturas, quando já a mulherada se retirou pra ir assistir Master Chef em casa e os baguais se puseram no pátio a queimar seus puros, aquele momento em que as verdades não aparentes aparecem, comecei a pensar que eu devia ficar alguns minutos de pé e depois me retirar pra tentar jiboiar em casa, mas nem terminei de mencionar minha covardia quando o inoxidável Sady contestou: “não sem antes provar do Aquavit artesanal que eu trouxe”. Isso é para os fortes, decididamente. Foi o tempo de exercitar o abdome estufado com muitas risadas causadas pelas confidencias dos comensais restantes no já "petit comité", que lá vem o Burgomestre com uma garrafa que parece uma pedra de gelo e passa a servir copetas com um líquido viscoso que dali escorria. 

Mocotó, cerveja, doce, charutos e álcool. Álcool temperado e com um sabor incrível, mas álcool. Era tudo o que eu precisava pra dar a noite por encerrada e assim foi. Sexo? Vocês perderam o juízo? Se eu desse uma mínima chacoalhada, entupido do jeito que estava, voltariam as enchentes sobre a região metropolitana de Porto Alegre em questão de segundos. Seria uma catástrofe da qual nem a Defesa Civil poderia livrar a população. Cama e 18 travesseiros, pois é vida que segue.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Valerosos Caramingüeites

Entrei em contato com um agente de viagens conhecido, pois tinha dúvidas sobre qual a melhor forma de dinheiro pra se usar em uma breve viagem à vizinha Argentina, se Reais, Pesos, Dolar, cartão de débito etc. Ele foi taxativo: Dolar. Era quarta, pra quinta-feira dia 15 e ele me avisa que a cotação da moeda do Tio Sam está em R$ 3,33. Brinquei que a meia-dúzia de caraminguás que podia comprar praquela aventura não justificavam que eu saísse correndo, que a cotação já estava alta e tal e ele comentou que se necessário deixaria o valor separado garantindo o preço contratado, mas que não deixasse para amanhã, pois ninguém sabe o que pode acontecer. Pelo sim, pelo não, comprei meus caramingüeites naquela tarde e garanti o passeio. Relaxei e nem quis mais saber de notícias, pois só viajaria ao fim do dia seguinte.
Assim nos fomos, eu e o caçula a bordo do novíssimo EMB 90 da Aerolineas, ao que o piá me pergunta por que as companhias aéreas brasileiras não usavam aquela aeronave, tão mais confortável e silenciosa que Boeings e Airbus. Nem tinha me dado conta. Azul, Aerolineas, Austral e Lan voam com aviões produzidos na Embraer, enquanto Gol e Tam se negam a usar o produto nacional. Tentei evitar a comparação desagradável com o fato de a Presidência da República do Brasil praticar o mesmo, já que o Air Force 51 é um Airbus e seu antecessor, o Sucatão, era um Boeing. Sem resposta a pergunta ficou.
Desembarcamos no Aeroparque ao começo da noite, fui imediatamente fazer um câmbio pra carregar algum “efectivo” no bolso e, na cabine descubro que era mais vantajoso usar Reais. Achei estranho mas fiz o mais lógico comprando Pesos com alguns Reais que tinha para a volta. Só precisava o suficiente para o taxi e a janta mesmo. O transporte até Belgrano ficou em 130 Pesos, contra os 110 acertados com o “remis”, que não esperou os 50min de atraso do voo; uma diferença em torno dos 5 Pilas. Para jantar, saboreamos em uma parrilla perto de casa uma carne que chamam de “Entraña” que entendi ser a parte sem gordura do vazio, do mesmo jeito que preparo em casa, só que estava melhor. Com “papas fritas”, “gaseosa y vino”, saiu por 220 Pesos. Viajados, alimentados e felizes por descobrir que naquela cidade maravilhosa nosso dinheiro valia bem mais do que por aqui.
Dia seguinte, primeira coisa, pegamos o metrô rumo ao centro da cidade, onde o câmbio é mais generoso, onde descobrimos que o Dolar azul(sim, os hermanos ainda transacionam com doletas verdes, só que pagam menos por estas) equivalia 14 locais. Fizeram as contas? Com 10 pagava o taxi e com 20 a janta, com direito a troco em ambas. Era domingo e dali seguimos para San Telmo que é dia de feira. O clima de céu aberto ajudava bastante e as bancas deixavam claro que preferiam Reais(4x1) e Dolares(14x1) nas transações. Naquele domingo houve ainda eleições nas capitais e em Buenos Aires os peronistas seguem alijados da administração pela 3ª vez consecutiva, lembrando que se trata do 2º posto mais importante da República do Prata.

Uma semana maravilhosa onde caminhamos até quase esfolar os pés, já que não vimos uma nuvem no céu, enquanto Porto Alegre sucumbia sob as águas de uma chuva constante e impiedosa. Um tempo excelente para arejar, comer medias-lunas, carnes e panchos maravilhosos  dar muita risada e esquecer um pouco do mau humor vigente na “terra brasilis”. Até porque ao desembarcarmos de volta descobrimos que o Dolar havia disparado e passado do valor que paguei, para R$ 3,47 e que, na segunda-feira bateu a casa dos 3,70. Em suma: parece que o Real acabou e já está frente à moeda azul dos americanos da mesma forma que encontramos os Pesos argentinos em relação ao dinheiro que nos custou tão caro estabilizar e voltar a ter poder de compra e poupança. Triste Brasil; matamos o futuro em apenas duas décadas.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Da Feira Direto Ao Coração

“Foco, foco, foco… vamos manter o foco”! Confesso que fiquei impressionado ao ouvir isso na feira. Não, eu não estava em algum evento empresarial ou de “coaching” em alguma federação patronal, mas em pleno canteiro central da av. Cascatinha, onde faço feira nos sábados.
Tem chovido muito, os vegetais estão feios e escassos com preços pela hora da morte -uns culpam São Pedro, outros o PT- e não foi diferente no começo do último fim de semana. Teve chuva pela manhã seguida de uma razoável estiada que me possibilitou até uma caminhada no parque depois das compras, além de abrir as janelas e arejar a casa, que já começava a apresentar sinais de bolor pelas paredes. 
Voltando ao foco -o meu no argumento do texto- havia bastante gente tentando gastar. Comi um pastel e bebi meu caldo-de-cana na feira ao fim da manhã. Em seguida me pus a passo entre as bancas e estava ruim de comprar alimentos frescos. Os tomates, desde que chegou este inverno ainda não me fizeram deixar de comprar os molhos e enlatados importados, que conseguem chegar aqui a preço mais convidativo que o produto trazido da horta. As bananas estão mais repulsivas que eu quando saio da cama pela manhã e a couve está chegando em folhas do tamanho de louro, enquanto que louro não há. Mesmo assim, lá estávamos, os consumidores, ávidos por fazermos compras, mas os vendedores, cansados por acordarem de madrugada, montarem suas barracas e passarem as 3 primeiras horas de seu trabalho embaixo de chuva e quase sem clientes, já haviam desligado os disjuntores. Sabe, perda total de saco e esperança? Pois é, já nem se davam conta de que centenas de clientes chegaram de repente, doidinhos pra gastarem o que tinha nas carteiras. 
Foi quando o “manager” de uma dessas barracas começou a gritar com os colegas: “foco, foco, vamos manter o foco…” Comecei a rir sozinho pensando na possibilidade de estarem vendendo foco na feira, posto que as óticas perderam a exclusividade no produto para os camelôs, mas percebi que era apenas um “coach feirante” tentando aproveitar a derradeira oportunidade de diminuir o prejuízo daquela manhã, quiçá da semana. Lembrei do que diz Dado Schneider em suas palestras de otimização profissional, parafraseando Delfim Netto: “pior que a realidade, só as perspectivas”.

Do fundo do coração vem o desejo de que, ao melhor estilo das empresas de ponta-de-lança do marketing e grandes negócios, o “coach manager” da tenda de horti-frutis tenha conseguido recuperar a estima e capacidade vendedora de seus colaboradores na feira, depois de duas semanas tentando vender produtos abaixo do padrão e acima do preço a escassos clientes. Ao mesmo tempo que o coração se enche de esperança ao lembrar que conheço gente capaz de abandonar sua zona de conforto pelo simples sentimento de cumprir um dever social com quem precisava mais naquele momento.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O Terremoto Que Destruiu L'Aquilla

A serviço da burocracia, a ciência pune
Direto de Abruzzo, Italia

Jarno Trulli é o único motivo de alegria recente para os italianos apaixonado pela Fórmula 1. É abruzzese, como o avô de Madonna, Gaetano Ciccone e como tantos outros que chegaram ao nosso país e, por não conhecerem a língua local, ao serem questionados sobre os nomes, recitavam a procedência. Temos um vizinho aqui da redação chamado Abruzzese. Como tantos outros que hoje não têm motivo algum para celebrar a Páscoa, a boa fase de Trulli ou um espetáculo da Madonna. A região de Abruzzo, no coração da Itália sofre o tormento de estar no epicentro de um terremoto absurdo.

Mas se terremotos não podem ser evitados, como pode um ser mais absurdo? Acontece que o pesquisador Gioacchino Giuliani vem gritando aos 4 ventos desde março que o cataclisma estava por acontecer e seu epicentro? Abruzzo, mais precisamente a região de L'Aquilla. O que fizeram os burocratas -e na Itália os há em número ainda maior deles do que imigrantes- o que foi que eles fizeram? Guido Bertolaso, chefe da Defesa Civil ameaçou o cientista de queixa crime por tentativa de desordem pública. É certo que Giuliani botou a boca num megafone avisando a todos que deviam se mandar dali, muito antes da terra tremer e soterrar tantos compatriotas, "abruzzeses" ou não. Como a jovem Annalisa, 28 anos, que saiu da França, onde vivia em segurança, para passar os feriados com a família. Nem ela, tampouco sua filhinha recém nascida tomaram conhecimento do estardalhaço do "maluco" que apregoava o fim do mundo. Felizmente ela conseguiu se jogar para baixo da cama, protegendo a filha debaixo do braço e ambas sobreviveram.

Sorte que não tiveram tantos outros jovens que se reuniam na Casa do Estudante de L'Aquila. A cidade tinha muitos templos católicos, sendo rota de peregrinação e turismo religioso. Hoje tem meia dúzia de igrejas a menos. Quem acessar o Google Earth e olhar a imagem do satélite vai ficar com a impressão que um Godzilla bêbado dedicou-se a pisotear igrejas e prédios públicos.

Prédios públicos que aliás, segundo o chefe da Comissão de Grande Risco -tem disso sim- chegam a 80 mil em áreas suscetíveis a terremotos. Existe uma falha geodésica entre os mares Tirreno e Adriático que faz com que as placas tectônicas se afastem cerca de um milímetro ao ano. Ora, o que é um milímetro na cabeça de um burocrata? Junte 200 desses, no meio de um país e veremos uma sucessão de cismas como o de 90 na Sicília, o de 97 na Umbria e o de 2002 em Puglia. E o louco é o cientista que alerta, baseado em emissões de gás radon que segundo as autoridades, incluindo o ilustre chefe da Defesa Civil, "não é um procedimento científico".

Santa Clara, que perdeu seu templo em L'Aquila, que clareie as idéias desses burocratas do pensamento, porque baseados nos patamares da ciência burra, ainda vão matar muita gente. Em compensação, dom Berlusconi já anunciou com sua tradicional eloquência que "o Estado é presente", liberando 30 Milhões de Euros para a "reconstrução", que segundo um outro pesquisador -ah este sim do agrado dos burocratas- vai levar "pelo menos 8 anos". Melhor manter a gaveta aberta, seu Silvio, que essa gente mama com tanta sede que nem o gás radon do pesquisador maluquinho será capaz de prever.

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Vida chacoalhada

Estava no Equador quando fui despertado por um terremoto, pela primeira vez. A cama, o chão, a casa toda chacoalhavam de uma forma difícil de se acreditar. Alertei a comadre, que nem abriu os olhos: "são passarinhos batendo na janela" definiu. Corri para fora do quarto onde avistei cada um no seu quadrado. Literalmente. O casal, dono da casa, abraçado sob o marco da porta do quarto que dá para o corredor. A mesma coisa no quarto das filhas e dos guris. As construções, em região de cisma, são projetadas para se movimentarem e não cair. Se isso acontecer, o lugar mais seguro é abaixo dos marcos das portas, sob as mesas e até camas. Aprendi isso muito antes, quando morava no Texas, bem no meio da região de furacões e tornados. A receita é quase a mesma, já que a casa cai, ou levanta vôo.

Em outra época, quando vivia em São Francisco, a falha de San Andres, se manifestou ao menos 3 vezes, numa delas atingindo 6 pontinhos na escala Richter. Tive sorte de não estar mais por lá quando aquele grande cismo destruiu tudo.

Já que na Itália tudo, ou é muito antigo, ou é construído sob autorização e determinação dos burocratas que assolam o país desde muito antes de Berlusconi, a casa cai, a igreja cai, a prefeitura cai. Só rezando pra São Emidio, santo padroeiro dos terremotos, ou melhor; de suas conseqüências. A burocracia italiana, no que tange a tremores de terra é tanta, que por aqui eles possuem uma escala própria para medir cismas: a Mercalli.

Nada disso resolveu. Fui arrancado do sono às 3h e meia da madrugada, hora local de Roma, a 95km do epicentro do tremor. Como o hotel em que parava estava lotado e só restou pra mim um quarto abaixo do nível da rua, virei pro lado o voltei a dormir. De nada adiantaria correr para baixo do marco da porta. Felizmente a casa não caiu. A minha, porque aqui no centro da Itália, a coisa tá feia e o bicho tá pegando. Como disse o cardiologista que passou a madrugada de plantão no hospital de L'Aquila, tentando salvar tantas vidas que não pode contar: "quando retornei ao lar, pela manhã, para descansar um pouco, notei que somente uma casa da rua havia sido destruída; a minha". Perdeu a mulher e o filho de 8 anos. Fatalidade estranha, ou injusta.

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A TERRA TREMEU

Caramba, eram quase duas da madrugada em Roma, depois de uma jornada de libações e intensas caminhadas para conhecer tudo o que poderia estar ao alcance de meus pés. Da saideira até o hotel, pouco mais de uma quadra. Depois, escada abaixo, já que apesar de ter pago pela hospedagem antes de sair da Capital Gaúcha, enfiaram-me num porão, mesmo nível da recepção. Cansado e embalado do jeito que estava, mal deu pra tirar a roupa, escovar dentes, ligar a TV na Rai Uno pra dormir acompanhado de uma voz italiana e desmaiar.

Nada interromperia meu justo sono cinquentenário. Nada? Às três e meia da madruga um barulho repetitivo e desagradável brotava do solo. Meu estado alfa tentava me convencer que era apenas uma grande composição cargueira que passava pelos trilhos do outro lado da rua do hotel. Como assim, se todos os caminhos levam a Roma? Aqui a estação é terminal. Stazione Termini. Os trens passam por todos os outros lugares; aqui é seu destino. São obrigados a parar. Não se tratava de um trem em alta velocidade. Experiências no Equador, Califórnia e México já haviam me ensinado bem do que se tratava: terremoto. Sentei na cama a tempo de ver o prédio em cima de mim chacoalhando como uma kombi velha em estrada vicinal. Só consegui pensar: "se essa joça desaba, não vão conseguir encontrar nem minha identidade debaixo de tantos andares de escombros; o vizinho do último andar vai morrer igualzinho, mas pelo menos vão entregar um corpo para a família velar". Até que parou. Ufa. Virei para o lado e dormi.

Quando passaram os eflúvios etílicos e os efeitos danosos do fuso-horário, arregalo os olhos em direção à telinha que permanecia ligada no principal canal de notícias dos italianos. A catástrofe estava deflagrada. Não fora um abalo qualquer. A terra tremeu de verdade, tragando para suas entranhas vidas e obras de arte ali do meu lado, a 90km, em L'Aquila, bem no coração da bota. Felizmente Roma e eu escapamos, mas pela vemência dos depoimentos colhidos ao vivo, do epicentro do cisma, a coisa foi séria. Muito séria.

A Itália, todos sabem, é o berço da burocracia. Existe autoridade instituída para tudo, inclusive para terremotos. Tem até vocabulário próprio para ser usado na catástrofe, como "terremotati", a expressão que identifica vítimas do abalo. Legal esse gênero, não? Em vez de simplesmente desabrigado, ou flagelado, quem foi atingido pelo infortúnio ganha uma especialização: assim como o náufrago é aquele que estava em nau que foi a pique, quem sofreu por conta de uma uma atividade císmica vira terremotado. E para cuidar dos procedimentos de rescaldo, abrigo, alimentação dos sobreviventes, segurança, realojamento etc, existe a Comissão Nacional de Áreas de Risco, que infelizmente não levou a sério os gritos de um pesquisador, considerado maluco e intempestivo, que previa a tragédia nos 4 meses que a antecederam e que 3 dias antes correu pela cidade com um megafone em punho aos berros de "salve-se quem puder". O presidente da tal comissão chegou a solicitar a prisão do distinto cientista maluco, em vez de considerar a hipótese de averiguar os argumentos do cismologista.

Corro até a estação para um panini -a colazione do hotel nem refugiado merece- e verifico a possibilidade de partir direto para L'Aquila. Negativo. A ferrovia está fechada, por precaução, para evitar curiosos e porque todos os trens com carro leito à disposição foram desviados para o local, a fim de servirem de alojamento aos desabrigados. A mesma situação foi imposta aos ônibus e, mesmo que alugasse um carro, a estrada estava interrompida. Acesso, só pela costa adriática. Como estava em meus planos passar por Bari, para visitar a Basílica Máxima de São Nicolau, nem pensei duas vezes.

Coisa boa viajar de trem. Aí que se vê como o Brasil jamais será um país competitivo. Cada vez que se passa por um tronco multi-modal, a quantidade de bens em carga e descarga e o números de serviços que brotam em volta, mostra nitidamente porque alguns lugares possuem mercado forte enquanto outros não passam de eternos embriões. Quando se chega em Bari, então, a porta sul do mar Adriático mostra uma gritante vocação para gigantesco entreposto que recebe e despacha encomendas do e para o Oriente Médio, ou mesmo aquelas que conseguem transporte pelo já esclerosado Canal de Suez. A cidade não é grande, mas o que se movimenta a partir deste tronco multi-modal, para toda Itália, Suíça gera uma economia milionária.

Bari é muito charmosa, como a maioria dos portos. Tem um centro histórico que qualquer um consegue fazer a pé, sem criar calos. A catedral de S. Sabino, que hospeda o museu Diocesano, bem como o Castelo Normano Svevo são exemplos da melhor arquitetura românica pugliese. Simples e despojada, mas com toda a pompa e circunstância dos grandes monumentos históricos. As ruas estreitas e vielas onde só passam "motorini" é um cenário típico do sul da Itália, com seus varais suspensos ligando uma janela à outra, com roupas a secar e velhas senhoras a falar em voz alta.

Apesar das 6 igrejas históricas, minha peregrinação buscava a Basílica Pontificia San Nicola, um santo que não pediu para assumir qualquer destaque na hierarquia Santa Amada, mas que por força de seu ritual incessante de orações, despojamento material -de família muito abastada, doou seus bens a quem deles necessitasse, inaugurando o hábito cristão de dar presentes- jejum quase constante, já que se alimentava apenas o suficiente para manter-se vivo, trajando sempre as vestes mais simples que pudesse. Originário de Mira, na Turquia, próximo à Rússia, seus despojos foram saqueados por soldados puglieses e trazidos à Bari, onde se ergueu sua igreja, post mortem.

Uma missa singela acontecia na capela subterrânea da basílica, quando lá cheguei. Tive a impressão de ser o único turista. Os demais presentes, por estarem bem vestidos, evidenciavam a origem italiana. Aliás, quando foi que nós brasileiros deixamos de usar roupa de missa? Onde já se viu ir à igreja de bermudas, chinelos e tomara-que-caia? Tá certo que San Nicolau era desapegado, mas isso não quer dizer que se deva ir à missa em trajes de banho ou futebol. Minha melhor reverência à humildade necessária à ocasião foi o quarto da pensão em que fiquei, pertencente a uma família de devotos, claro. Uma caminha, uma escrevaninha, um banheiro decente e só.

Mesmo assim não deixei de conhecer a noite local, onde pencas de estudantes se misturam aos milionários mercantes em dezenas de bares de todos os tipos, que vão da parte antiga da cidade em direção ao centro e ao porto. Eu estava muito cansado com toda essa função, viagem e peregrinação. As pernas doíam. Apesar disso arrumei vontade para provar o prato típico -orichiete, uma massa em forma de orelhinha- e sorver um potentíssimo e jovem vinho pugliese, que já na 2ª taça fez o serviço de liberar meus intestinos entupidos pelo excesso de panini, pizza, pasta, focaccia, enfim das muitas formas que os italianos usam para comer pão. Eu que só como uma fatiazinha no café da manhã, entupi.

Conheci gente que embarcou em um cruzeiro romântico que parte de Bari e segue pela costa adriática até Veneza. Existe outro roteiro que pode levar aos bálcãs, de onde vem a maior leva de imigrantes que hoje viram alvo das autoridades italianas. Mulheres lindas e homens com poucos escrúpulos. Gente que passou por guerras e sobreviveu ao maior genocídio do final de século.

Minha missão em Bari estava cumprida. Uma boa noite de repouso e rumo a Abruzzo, onde os acontecimentos não paravam de chacoalhar a península.


Nem só de chocolate vive a Páscoa
Direto de Pescara, Italia

Marco Parodi, médico responsável pelos feridos acolhidos no sistema montado na emergência de L'Aquila apresenta com a frieza do distanciamento comum aos homens de branco: "não temos mais esperança de encontrar sobreviventes; vamos concentrar nossos esforços na salvação dos feridos resgatados". Assim sendo os jornalistas que chegaram ao epicentro do terremoto que assolou a Itália nesta segunda-feira, melhor fazem se derem espaço aos bombeiros e pessoal da Defesa Civil, para que a vida recomece no canto oeste da província de Abruzzo.

Não faz sentido permanecer no local remetendo os sobreviventes ao pior momento de suas vidas repetidas vezes ao dia. Não é papel da imprensa explorar a miséria humana. Escritores de ficção fazem isso de forma muito mais inteligente e profunda. Tansformar L'Aquila numa sucursal do Big Brother, ficar remoendo os olhares perdidos, as crianças desesperadas por um pote de mingau ou o desespero dos pais que perderam os filhos; replicar a foto da sorridente Serena Scipione, 24 anos, ao lado da amiga Marta Valente, feita horas antes em um momento de diversão, para sublegendar que a primeira não mostrará mais o sorriso cativante enquanto a segunda terá de sobreviver só, decididamente não nos leva a lugar algum. Melhor olhar para a frente e seguir a sugestão de dona Lorena Bari, que aos 93 anos perdeu tudo menos a vida -está muito triste por não poder mais folhear seus livros- quando sintetiza tudo que se pode dizer numa hora dessas, em apenas duas palavras: "estou viva".

Os tremores continuam, o que está levando desabrigados ao desepero. Muita gente foi enviada para Pescara, a capital, onde me encontro neste momento. Albergues e pensões estão lotados. Em meu hotel estão 70 famílias de "refugiados". É daqui que vão começar de novo. É a partir desse outro horizonte que toda uma população precisa aprender a olhar para a frente.

Não são poucos os traumatizados que se negam a dormir dentro das instalações oferecidas, muitas vezes até por voluntários. Apesar do frio, preferem dormir dentro dos carros, em estacionamentos distantes do prédio mais próximo. A sequência de tremores não ajuda o moral e falar em trabalho psicológico num momento desses é poesia. Os terremotos chacoalham as construções daqui igualzinho às de lá. Ninguém consegue segurar essa gente aqui dentro quando começa a tremer. Como se não bastasse uma inversão términa sobre o Adriático fez com que a costa abruzzese ficasse encoberta por espessa neblina, impedindo que o sol esquenta a primavera de Pescara.

Do majestoso e impagável hotel Esplanada, em frente ao mar, ao albergue da ferroviária, todos estão hospedando os cerca de 6.500 desabrigados de L'Aquila. Se tivermos a sorte de passar uma noite sem terremotos, talvez essa gente consiga dormir uma noite razoável. Aqueles que conseguirem, podem despertar nesta quinta-feira de Páscoa, olhando para a frente, vendo a beleza do mar e, quem sabe, pensar que 3 dias depois do martírio, Jesus ressurgiu para dar a todos um novo caminho a seguir. Com esperança e fraternidade.