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sábado, 25 de fevereiro de 2023

O Poder das Big Techs

A data era de 17 de março 2020. Lembro claramente pois foi o dia em que mandaram fechar tudo na Capital Gaúcha. Eu tinha consulta médica, de rotina e fui aprovado em todos exames, com louvor. Saí do consultório bem contente e lembrei que o Caçula, residente a duas quadras dali, seguia sem aulas na faculdade. Liguei e convidei pra um cachorrinho na Princesa, ao que ele prontamente apareceu na minha frente.
Lanche feito, pedi ajuda a ele pra me acompanhar na compra de uns acessórios para o iPhone novo que recebera no dia anterior, que veio da fábrica pelado. Assim fomos numa loja ali na Salgado Filho onde uma boa vendedora ofereceu uma série de produtos. Comprei o que era necessário e fomos até o Tuim beber um chope, pois tinha certeza de que tudo fecharia ao fim daquela tarde, para ninguém saber quando, ou se, reabririam. Assim fizemos. Foi ótimo e divertido.
Qual não foi minha surpresa quando, ao chegar em casa, na hora em que abri o computador, na primeira rede social que olho, vem o anúncio de um fone de ouvido, no qual eu estava interessado. Como não acredito em coincidências, guardei aquilo. No fim de semana o Caçula foi almoçar lá em casa e comentei o acontecido com ele, que definiu: “claro, tu conversou com a vendedora da loja sobre estar precisando de um fone de ouvido novo para teu iPhone…”
A partir daquele momento eu já tinha certeza do preço que se paga por termos essa vasta e intangível rede de amizades de forma gratuita. Nada é de graça e as “Big Techs” que controlam nossas redes são, ao mesmo tempo, as empresas que mais faturam na história do nosso planeta. Aí fica fácil chegar à compreensão de que se elas não cobram pelo serviço que prestam, como ganham tanto dinheiro? O serviço que prestam é de graça porque o produto a ser vendido é o usuário. Sim querido amigo virtual: cada vez que confessamos um desejo de consumo próximo a algum dos aparelhos dotados de Inteligência Artificial -celular, tablet, note ou smart TV- o que falamos é transformado em dados, passado às redes em forma de criptografia em seus “data centers” que encaminham um leilão ao mercado pra ver quem dá mais por aquela informação. Tudo isso feito quase que instantaneamente. Da próxima vez que acessar uma rede pelo cel, ou computador, vai receber um anúncio, ou link sugerido especialmente para você.
Não vá pensando que isso é alguma teoria da conspiração. É apenas a forma de “monetização” descoberta pelas “Big Techs” que, infelizmente, passou a ser usada como arma política, assunto do qual não devo falar por aqui, senão tomo mais um banimento por “contrariar as regras da comunidade”. Apenas recomendo o documentário da Netflix, “O Dilema das Redes”. Nele você vai ver isso explicado por gente que desenvolveu o sistema e as plataformas

domingo, 19 de fevereiro de 2023

ZIRIGUIDUM

"Mamãe eu quero, mamãe eu quero 

Mamãe eu quero mamar! 

Me dá a chupeta, me dá a chupeta, me dá a chupeta 

pro neném não chorar"

Aprendi nos bailes de Carnaval da infância que quando a banda iniciava os acordes da mais famosa marcha de todos os tempos, era porque a festa chegava ao fim e teria, no máximo, mais uma ou duas músicas pra dançar. Portanto se ainda não dançou com aquela prenda que te encanta, cria coragem -criança não bebe, logo tem de ir na audácia mesmo- pega ela pelo ombro e bora dar as derradeiras voltas pelo salão. 


“Dorme filhinho do meu coração 

Pega a mamadeira e entra no cordão 

Eu tenho uma irmã que se chama Ana 

De piscar o olho já ficou sem a pestana”


Usando teu melhor sorriso, passa o cordão de flores do teu pescoço para o dela. Ok se ela já tem 4; isso apenas significa que ela se divertiu bastante no evento e que vai terminar a festa a teu lado.


“Eu olho as pequenas, mas daquele jeito 

E tenho muita pena não ser criança de peito 

Eu tenho uma irmã que é fenomenal 

Ela é da bossa e o marido é um boçal”


A música está terminando e depois dessa, só tem mais uma… então olhe-a nos olhos, feche o universo em volta e faça com que o olhar dela tenha apenas o teu como oferta naquele átimo e não permita distrações. Busque lá dentro do olhar dela, aquele raio de luz que abre a porta do coração e, se encontrar essa chave preciosa, abra a porta e avance. Pegue na mão dela, pare e beije-a, como se aquele fosse o ato mais importante e fundamental daquele universo onde só vocês dois habitam.


“Pam-pa-ram pa-ra-ram pa-ra-ram

Pam-pa-ram pa-ra-ram pa-ra-ram

Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil…”


Você acertou. Se depois de Mamãe Eu Quero, a banda tocar Cidade Maravilhosa é mesmo o fim do baile e você marcou o gol da classificação nos acréscimos, depois dos 45min do 2º tempo, conquistando o campeonato. A taça será sua, a menos que essa seja a matinê de Sábado. Neste caso, na tarde do Domingo tem o jogo da volta…


“Pam-para-ram pa-ra-ram pa-ra-ram (desaparecem os ritmos e ficam só os metais)

Pa-ra-ra-ra-ra-ra-raaaa(bem lento)


Fim de festa e Ziriguidum

domingo, 12 de fevereiro de 2023

3-hydroxy-1-methyl-2,3-dihydro-1H-indole-5,6-dione - C₉H₉NO₃

Tortura-se uma criança entre 7 e 10 anos de idade, até o ponto dela acreditar que vai morrer. Seu organismo vai encher a corrente sanguínea com adrenalina. Retirado o sangue da criança, separa-se a adrenalina infantil e se oxida. Pronto: temos adrenocromo que, claro você sabe, é uma droga que impede o envelhecimento. Ah, não conseguiu comprar e usar? Claro, o custo é pra milionários e os maiores “habitués” estão em Hollywood. Ou você acha que Tom Cruise parou de envelhecer aos 35 anos por sorte?

Os laboratórios que tratavam a química do produto, nos EUA, sentiram-se ameaçados e migraram para o leste europeu, mais precisamente para a cidade de Kiev. Há 2 dias, Moscou divulgou a apreensão de um carregamento do produto, que partia em direção a Varsóvia, de onde seria enviado a Delaware, nos EUA.

Se você tinha Zelensky e sua turma como “mocinhos” nessa guerra odienta, lembre-se: na guerra não existem mocinhos, ou vilões e a primeira vítima é sempre a verdade

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Angu do Gomes e Saramandaia

"Eu sou o estopim da bomba 
É você quem me faz ser assim.
Se não quer ver o estouro da bomba. 
Não encoste esse fogo em mim"

Mamãe é Carioca e sua família enraizada na antiga capital do RJ, Niterói. Passei a infância e boa parte da adolescência trafegando pra lá e pra cá, pelas barcas que conduzem milhões de passageiros, todos os dias, através da baía de Guanabara. Pra quem não sabe, até a inauguração de Brasilia, o Distrito Federal era a Guanabara, sede do governo deste país até que Juscelino Kubistcheck criou aquela aberração no meio do Planalto Central. Favas contadas e águas passadas, que não movem moinhos. Em tempo: já viu um moinho d’água? No RS ainda existem vários. Pesquise e vá conhecer pra entender o porquê da expressão.

Assim sendo, como tinha o hábito de frequentar a Praça 15, do Rio, desde que era carregado pela mão materna, pra lá me dirigi com o intuito de atravessar a baía e visitar a família. Ao chegar ali, a tradicional muvuca carioca. A cada barca que chega, abre-se um portão por onde são despejadas 500, talvez 600 pessoas ou mais. Todos com pressa buscando seu caminho na Cidade Maravilhosa. Naquele dia eu estava com fome e passei no carrinho do Angu do Gomes e pedi uma refeição, que era servida em um prato de alumínio, o qual se comia em pé.



Por não saber comer rápido, até porque aquilo é servido bem quente, parei e prestei atenção em um tradicional trio nordestino -triângulo, zabumba e sanfona- nas proximidades. O triângulo era empunhado por uma belíssima morena de saia curta e pernas delineadas, com voz boa e potente. Fiquei olhando e ouvindo enquanto ela entoava: “eu sou o estopim da bomba, é você quem me faz ser assim…” Minha memória imediatamente me trouxe de volta a 1976, quando surgiu a novela Saramandaia, obra de Dias Gomes inspirada, segundo dizem, no livro “O Coronel e o Lobisomem”, pérola do realismo fantástico brasileiro, de José Cândido de Carvalho.


A canção interpretada pela bela morena, foi gravada no disco original da trilha da novela por ninguém menos que a intérprete da personagem Marina, da novela, a estupenda Sonia Braga no auge da sua morenice. A personagem precisava tomar banhos frios sucessivos, pois pegava fogo e incendiava tudo ao seu redor, especialmente quando Gibão -personagem interpretado por Juca de Oliveira, que tinha asas- estava por perto. 


Angu do Gomes era tido e vendido pelo próprio fundador do esquema de carrocinhas populares, como um afrodisíaco. Vendo aquela morena maravilhosa se insinuar pelos transeuntes a pedir $$, lembrei imediatamente da personagem e o efeito da gororoba foi imediato, ao jovem com menos de 18 anos e fiquei extasiado, ali parado, enchendo a pança e assistindo o espetáculo, lembrando de Saramandaia e da personagem de Sonia Braga, suas chamas intensas e seu sussurrar inebriante. 


Até que tocou a sirene da barca partindo pra Niterói

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Café Sem Máscara

O Domingo amanheceu diferente. Depois de 40 dias e 40 noites não havia mais chuva e o céu insistia em estar claro, até um tanto azulado. Havia até um clarão um tanto alaranjado que insistia em brilhar, parecendo coisa de série de algum canal de “streaming”. Aí bateu aquela vontade de tomar um café. Tento não fazer isso em casa, a ponto de nem ter café em casa. As máquinas pra fazer isso eu já doei faz tempo. Senão, eu solitário e no “home office” vou ingerir tamanhas quantidades disso que meu estômago vai virar uma peneira.

Partiu postinho, onde as meninas só me tratam bem e a máquina prepara sempre um expresso igual. Gostava do café do Nacional, onde encontrava o Reni, um bom papo, já que fica na esquina da casa dele. O Cassiá, outra figura do bairro, também, mas a pandemia fechou o café. Então só me resta o postinho, para onde rumei e, para minha agradável surpresa fui atendido por uma jovem sorridente e sem máscara. Confesso que, depois de tanto tempo sendo atendido por pessoas mascaradas, fiquei atônito. Ela exibia lindamente um sorriso que emoldurava seu “piercing” labial.
Os olhos delineados e o rosto levemente maquiado. Definitivamente ela se produziu antes de sair de casa para ir trabalhar ainda mais bela do que a mãe natureza a colocou entre nós. Aí o café ganha um sabor especial. Ver seu pequeno nariz mexer quando falava algo, ou ao sorrir, foi um tempero especial para minha bebida quente matinal. Valeu cada gole.
Manhã de Sol, festa de luz e o Poli a caminhar pela imensidão da Perimetral, que até ontem era um dilúvio por onde os ônibus que aqui passam pareciam terem sido substituídos pela Arca de Noé. Chuva é bom, é vida e faz bem ao solo, mas não precisa cair por tanto tempo seguido. Viver num mundo plúmbeo é coisa para “Blade Runner”, ou batráquios. Nada como a luz do Sol, um bom café e um sorriso. Sem máscara

sexta-feira, 27 de maio de 2022

David Coimbra Generator

 Há 20 anos, quando isso aqui ainda era mato ainda bem porque a internet era à lenha, havia uma febre de geradores de textos, memes, dublagens ou créditos na sua língua para cenas famosas. Lembro que, na época, criei um gerador de crônicas no formato do colunista mais lido nos Jornais -no tempo da internet à lenha eles ainda existiam. Era o David Coimbra Generator.

Quem quisesse escrever uma crônica como as dele, bastava seguir o passo-a-passo:

Siga os seguintes passos para escrever crônicas como Davi Coimbra:

  • Comece por determinar uma região do seu torrão natal, como sendo o lugar onde se criou:
  • Dê vida aos personagens:
  • Insira uma ação ou situação de polêmica:
  • Encaminhe o desfecho:
Quer ver como funciona na prática? Olha só:

Começo por determinar uma região do meu torrão natal, como sendo o lugar onde me criei:

  • Cresci batendo pernas entre a Coronel Bordini, rua onde o bonde fazia a curva, local de minha residência e a Praça Júlio, onde moravam os Meneghetti. No meio do caminho, subindo pela 24 de Outubro, passava pelo Yellows, pela Girafa Cor-de-Rosa, onde vivia o Paulinho e pelo Elefante Branco que era o Floragê. Duas quadras acima, em frente ao escombro do Prado Velho, em que mais tarde a municipalidade construiu o Parcão, para gáudio dos Colorados deste Sul de Mundo, em frente ao qual cheguei a cursar inglês no Yazigi, outro lado da rua de onde montaram um Tobogã -lembro de um Dia das Crianças em que o dono liberou o ingresso e toda a piazada da redondeza se empilhou com sacos de estopa nas mãos- mesma quadra onde também morava o Rivinha. Da esquina onde moravam os irmãos Claudio, Zizo e Neco da Poian e o Gordo Eugênio, subia-se mais e na outra encruzilhada construíram uma galeria onde instalou-se o Guga’s, na quadra onde viviam o Toninho e sua esplendorosa irmã, a Vica. Passando a esquina, onde ficava o postinho, vinha a curva da 24, onde morava a família Loureiro da Silva -dois guris, o Zé e o Pedro e 4 lindas gurias; Lizete, Clarissa, Andrea e Corina. A partir daquela curva, as quadras do Parque de Tênis e aquela beleza ajardinada da Caixa D’Água. A quadra seguinte começava por um cortiço, em frente a dois sobrados geminados de 3 andares, para um dos quais nos mudamos. Por fim, a Vila Jardim Cristoffel, a Praça Júlio, a avenida Independência e o calçadão do Esplanada local do Joe’s, onde imperava a Gorda Cida.

Dar vida aos personagens:

  • Aos 5 anos ingressei no Colégio Farroupilha, pra onde ia no ônibus do Seu Mário. Na condução conheci o Toninho e sua linda irmã Vica. Brigávamos o tempo todo, pois ele não gostava do jeito que eu olhava pra ela. Pra poder rolar a pancadaria, os demais passageiros no fundão tinham de fazer barulho, normalmente alguma cantoria de sucesso da época que todos soubessem de cor e ficarem de pé, pra encobrir a pugna, enquanto rolávamos pelo chão ou assentos dos banco traseiros. Caso o Seu Mário descobrisse a briga, brecava o ônibus, empunhava um pedaço de mangueira que carregava embaixo do banco e usava pra chupar gasolina do carro de algum pai generoso, quando seu velho Chevrolet sofria pane seca. Apartava a briga a golpes de mangueira e expulsava do ônibus os valentões, que teriam de queimar aquela energia caminhando a pé pra casa, em plena hora do almoço. Ainda no trajeto da 24 de Outubro, Seu Mário pegava os Loureiro e lá na Praça Júlio os irmãos Alberto, Renato e Eduardo Meneghetti, de quem fiquei amigo e especialmente o mais velho, Alberto, grande fotógrafo, publicitário disputado pelo mercado e visionário. Tudo isso que surpreendeu os porto-alegrenses com a vinda do South Summit e seu congresso de “start ups” ele já vem desenvolvendo e mentorando há anos

Inserir uma ação ou situação de polêmica:

  • Ali fui seduzido pelo tabagismo. Quase todos fumavam e os mais velhos, depois de fumar o último crivo, davam os maços vazios aos mais jovens, que os colecionávamos como figurinhas. Ainda não tinham lançado os álbuns de figurinhas e colecionar maços de cigarro ocupava aquela função. Eu ia ao Rio duas vezes por ano, nas férias escolares, pois tive a sorte de ser filho de uma carioca. Na bandeja do almoço do voo 100, a bordo do Electra da Varig, além da magnífica refeição completa -da entrada à sobremesa, passando pela salada e o filé com acompanhamento- havia um estojinho com 4 cigarros Minister, os quais eu fumava escondido dos pais… e assim fui aprendendo a fumar. Paulinho e Rivinha também eram tabagistas, aliás o Riva fuma até hoje. Paulo parou depois de um susto dia desses, mas gostávamos de perscrutar marcas internacionais, que encontrávamos na Avenida América, lá no pé da Bordini ou num outro contrabandista ali na 24 perto da Lucas. Na época não havia Parliament no Brasil, só de contrabando. O mesmo valia para Chesterfield e Marlboro. Gastávamos quase toda mesada em fumaça de tabaco importado.

Encaminhar o desfecho:

  • Essa gurizada foi crescendo e assistindo as mudanças no entorno. Foi construído o Parcão, os bondes deixaram de circular pela 24 e Bordini, o Yellows fechou, a turma da bicicleta deixou de se reunir na Vila Jardim e calçadão do Esplanada, o pai vendeu nossa casa de pátio imenso para o governo da Alemanha construir o Instituto Goethe, os contrabandistas foram perdendo seu mercado para a indústria oficial, o 5ª Avenida Center tomou o local do cortiço, a Independência inverteu a mão que conduzia ao Centro, bem como eu troquei o cachorro-quente de 30cm do Joe’s -que também fechou- pelo cachorrinho da Princesa, na outra ponta da avenida. O que não mudou foi a amizade que fiz com toda essa gente que pertenceu ao meu universo da 24 de Outubro na juventude. Há poucos dias fui almoçar com Paulinho e Rivinha; os irmãos da Poian viraram grandes empreendedores em diferentes locais do país, bem como o Gordo Eugenio que, na ausência do Planeta Atlântida construiu o Cais Embarcadero; encontrei com o Meneghetti caminhando por nossa rua, a Gorda Cida eu vejo sempre que vou a um parque nos domingos onde ela esteja promovendo algum jovem artista da cena roqueira e a Vica continua linda, pena que se casou com outro. Ah… e que o Toninho não leia isto, pois estamos velhos demais para voltar a trocar socos.
Fica aqui minha homenagem ao Jornalista gaúcho que partiu nesta sexta-feira. Um dos melhores cronistas aqui do Sul do Mundo, David Coimbra, que partiu deixando esta escola singela de escrita, além de tantas outras qualidades na carreira jornalística.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Duas Brahmas e Um Ensopado de Búfalo

Tenho dois hábitos de vida toda, não importa onde esteja:
1- caminho, mas caminho muito; meus pés ensinam ao cérebro a geografia do local onde esteja, é a conexão
2- quando canso, entro num bar e bebo e bebo muito, até o cérebro desconectar
Normalmente faço isso quando estou só e minhas melhores viagens foram feitas na solidão, logo não levo problemas, nem os crio. É só solução… e alguns soluços eventualmente.
Uma vez estava em San Francisco, California, que vocês sabem é que nem Porto Alegre, pois a cidade começa no porto, “downtown” e sobe pela Borges de Medeiros, digo Market Street -até hj não entendi pq a Borges não se chama rua do Mercado. Quando estava começando a cansar aparece um “junkie” e pede: “hey bro, can you spare 20 thousand Dolars..?” Ri, meti a mão no bolso, peguei uma moeda, atirei pra ele e notei que ele estava em frente a um bar que dizia no letreiro: “mais de 480 cervejas do mundo todo”. Pareceu um bom lugar pra beber umas.

Entrei, olhei o pequeno bufê, onde notei um ensopado de búfalo e pensei: “vou encher a cara e depois comer isso, que na certa vai me dar aquele desarranjo, mas vou poder um dia contar a história de que enchi a cara num boteco que vendia 480 marcas de cerveja e onde comi um ensopado de búfalo que deixou memória”. Você pode não acreditar, mas no interminável cardápio de cervejas tinha até Brahma Beer. Eu, do outro lado do planeta, só e abandonado, sem eira nem beira, apenas com solado pra andar outro tanto e chutar as latas pelo caminho, gostei e fui ficando. E bebendo. Até o cérebro desconectar.
É o momento em que saio do corpo e viajo. Fica ali no balcão aquele corpanzil inerte, mas a imaginação viajando pelo cosmos qual um Gagarin tupiniquim. Até que, pelas tantas, ouço em meu ouvido: “Marco Aurélio”. Pensei fazer parte da viagem, já que a possibilidade de alguém ter esta informação privilegiada, do outro lado do planeta é nenhuma, nem despertei, mas a requisição se repetiu: “Marco Aurélio”. Pombas, só minha mãe me chamava assim, afinal foi ela quem me deu esse nome ao convencer meu pai que preferia Marco Antonio, argumentando que este último era um grande General, mas o primeiro foi Imperador.
E no terceiro “Marco Aurélio” decidi despertar. Faço isso amiúde, pois me nego a sair do torpor, cujo investimento foi alto, a menos que a situação realmente pareça séria, como era o caso. Uma vez, no extremo sul da ilha de Santa Catarina aconteceu o mesmo, até que lá pela terceira vez que ouvi meu nome despertei ao chamado do Gilberto Simões Pires e aquele seu vozeirão característico, ele que ama Floripa e gasta boa parte do ano por lá. Era um daqueles locais em que você espera uma eternidade por uma mesa, enquanto isso bebe trocentas caipirinhas e gasta uma fortuna, como todos os pontos afamados da ilha da magia.
Mas voltando a San Francisco e ao “Marco Aurélio” -só ex-colegas me chamam assim desde que mamãe deixou este mundo- despertei e olhei pra trás e vi o filho do seu Olavo. Quais as chances de isso acontecer? Você estar em outro hemisfério, sozinho, enchendo a cara num boteco desconhecido e o filho do bedel do colégio onde estudou te reconhecer e vir falar contigo? Pois é, essas coisas acontecem comigo.
Ele contou que morava e estudava do outro lado da baía, em Berkeley, mas veio até ali matar as saudades de uma Brahma Beer. Foi o que bastou. Chamei o garçon e pedi: “duas brahmas e um ensopado de búfalo”.